Elegia para Ranúsia
Por Lurildo Cleano Ribeiro Saraiva
(médico e professor da UFPE)

Eu a conheci durante as inúmeras passeatas, que fazíamos contra a Ditadura Civil-Militar de 64. Era uma quase meninota, magrinha, de olhar meigo, olhar faceiro, olhar puro, pernas finas, tez branca, nariz adunco, cabelos alourados e muito lisos. Era extremamente generosa, dócil, apegada à profissão de Enfermagem, que escolhera para ajudar ao próximo. Valente e guerreira. Incursa no Decreto-Lei 465, feito pelos generais para afugentar os jovens da conscientização política e da luta pelas liberdades democráticas, não se furtou a continuar o seu trabalho de ajudar fundamentalmente os enfermos pobres, ontem, como hoje, a sofrerem pela própria doença e pelo descaso com os hospitais universitários, carentes de tudo.

Lembro-me que a vi no enterro do Padre Henrique Pereira Neto, este uma das primeiras vítimas do terror da era Medici, de olhos úmidos, em plena Avenida Caxangá, ao lado da minha irmã, como ela, enfermeira. No ano de 1970, quando eu era interno no Hospital Pedro II, por volta das nove horas das sextas feiras, quase sempre me trazia um enfermo pobre para medicar e, sobretudo, companheiros, que militavam em luta clandestina, mostrando na pele estigmas das torturas ocorridas no DOPS. Eu os via de modo sorrateiro, com nomes falsos,
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